sábado, 19 de dezembro de 2009

A vida sem dúvidas que nos prega algumas partidas.

Pensamos que algumas coisas só acontecem aos outros. É mesmo nessas situações que essas mesmas coisas nos acontecem. E o pior, é que acontece a alguém que nós amamos muito de verdade.

Numa manhã como outra qualquer, o pequeno-almoço foi-lhe levado á cama. Tinha sido operado ao joelho há pouco tempo e não podia fazer esforços. Come o pão e o leite e depois é lhe levado o comprimido e um bocadinho de água. Vai com a mão direita com o comprimido á boca mas esta cai e nunca mais se levanta. Tenta falar a pedir ajuda mas a voz não saia. Quando a sua mulher passa ao pé da porta do quarto, este com a outra mão, pede-lhe para lá ir. A mulher vê que algo não está bem com ele e chama o seu filho. Este vai lá e pede para o seu pai falar. Nem uma palavra diz. Pede para lhe dar um abraço mas só um dos braços se mexeu.

Nesse momento ficam assustados e decidem ligar á outra filha. Esta fica assustada com o que lhe haviam contado e diz para ligarem imediatamente para o 112.

Assim foi dito e assim foi feito.

Quando o INEM chegou estiveram a vê-lo e levaram-no. Ele nem quis ir na cadeira de rodas, foi a andar, ainda que a perna direita mal se mexesse.

Foi para o Hospital Fernando da Fonseca (mais conhecido como Amadora-Sintra) e as piores das hipóteses foram confirmadas: tinha tido um AVC, um Acidente Vascular Cerebral, e que tinha sido forte. Era a única coisa que se sabia.

A Filha imediatamente liga para o seu marido e estes saem dos trabalhos e vão para o hospital. O seu pai estava num corredor, ao frio, numa maca com um AVC grave e ainda não tinha sido atendido. Tinha-se de esperar que lá fosse um médico, mas se dependesse disso, nunca mais era atendido e ficava para lá num canto esquecido e bem que podia morrer.

Nesse mesmo dia, estava eu na escola. Era uma quinta-feira. Estava a ir para uma actividade depois das aulas quando uma vigilante me chama a dizer que tenho que ir urgentemente embora e que o meu pai estava lá fora á minha espera. Quando chego ao pé do meu pai, este diz-me o que aconteceu e eu fico em estado de choque. Custa a crer que uma pessoa que era tão animada e que não parava quieta estivesse assim imóvel e presa no silêncio.

Tive que ir para casa porque os meus pais acharam melhor eu não ir para o hospital. Estava destroçada e sem saber o que fazer, totalmente desamparada.

Dois dias foi o tempo que ele esteve no SO á espera de um médico, no corredor, DOIS DIAS! Apanhou uma infecção á causa disso e só foi atendido por um médico porque o meu pai trabalha num hospital e vestiu a bata e foi lá para dentro tentar mover montanhas. Quando encontrou um médico este disse-lhe que já deveria ter sido visto por um neurologista e que o AVC tinha sido muito grande. Mandou logo um médico lá ir.

Nesse mesmo dia passou para uma enfermaria porque não havia lugar em neurologia.

O lado esquerdo do cérebro estava todo afectado. Puseram-no a sonda. Mal abria os olhos. Não falava e o braço e perna que conseguia mover estavam atados. Cenário horrível.

Esteve 3 semanas no hospital, as melhoras eram poucas. Ao fim dessas mesmas 3 semanas é mandado para casa. O hospital empresta uma cama e diz que este necessita de cuidados especiais. Era alimentado por sonda.

Na primeira noite em casa, ele retira a sonda tem que lá ir um enfermeiro pô-la outra vez, mas este fica com pena do homem e decide experimentar lhe dar de comer. Felizmente, este conseguiu comer e não foi preciso colocar a sonda.

Agora lá está ele, na sua cama (levantando-se de vez em quando para ir para a sala com a ajuda do filho e de uma cadeira de rodas), a comer coisas líquidas e passadas, sem poder falar, andar. Reconhece as pessoas e dá-lhes beijinhos. É carinhoso para quem conhece. Está ciente da sua situação.

Mete impressão ver como há pessoas que não dão o devido valor aos membros da sua família, que não aproveitam todos os momentos com estes mesmos. A vida é demasiado preciosa para ser desperdiçada.

A vida sem dúvidas que nos prega algumas partidas.

Sem comentários:

Enviar um comentário